Pessoas de várias partes se mobilizam para ajudar a quem precisaCláudia Vasconceloscvasconcelos@jc.com.br
Clara sorri e brinca como qualquer bebê de 1 ano. Derrete o coração de quem a conhece. Os pais transbordam de orgulho ao mostrar fotos da primeira filha. O que a diferencia da maioria das crianças não é a paralisia cerebral, que a impede de sentar, engatinhar, andar. É a luta de Carlos e Aline Pereira, seus pais, para melhorar sua saúde. Desde que descobriram hospitais chineses pioneiros em tratamento com células-tronco, formaram uma corrente de mobilização para obter doações e custear a cura. A campanha Um real por um sonho amealhou, em quatro meses, colaboradores em todo o País. Gente como Carlos e Aline não mede esforços para unir pessoas em prol de causas justas. São histórias assim que o JC publica na penúltima reportagem da série dominical sobre solidariedade.
A gravidez de Aline foi registrada desde o começo. No Youtube, mais de 30 mil viram o vídeo que mostra a barriga crescendo e os ultra-sons. O casal não imaginava que, no parto, faltasse oxigênio no cérebro de Clara. Ao ver a filhinha mal ter forças para respirar, Carlos e Aline desabaram. Após 18 dias na UTI, Clarinha chegou em casa, no Conjunto Ignez Andreazza, Zona Oeste do Recife. E os pais começaram a busca por uma solução. Cascavilharam a internet e descobriram o tratamento chinês, que curou centenas de crianças. Analista de sistemas, Carlos criou o site Um real por um sonho. E mobilizou mais que parentes, vizinhos e amigos.
Quinta-feira, o restaurante Maria Maria, de Jardim São Paulo, aumentou a corrente. Instituiu o Dia de Clara, com toda a renda destinada ao sonho da família. “Vamos muito lá e nos damos bem com funcionários e donos. Mas eles não sabiam da paralisia cerebral da nossa filha. Quando falamos da campanha, propuseram o dia temático”, entusiasma-se Carlos. O montante arrecadado, ainda em apuração na sexta, somou-se aos R$ 37 mil já obtidos. Isso representa 40% do necessário para ir a Pequim.
A campanha conta com a solidariedade de gente de todo o Brasil e do mundo. Camisetas com a estampa da sorridente Clarinha são vendidas a R$ 15. “Uma moça de Manaus chegou a pagar R$ 16 só de frete”, conta Aline. No Ignez Andreazza, os 3 mil apartamentos receberam panfletos, e a gerência do condomínio onde vivem 15 mil pessoas virou ponto de doação. Já o dono de um mercadinho no Ibura, Zona Sul, instalou urna que receberá doações até a bebê embarcar com os pais.
A campanha cresceu tanto que nem parece ter se iniciado só há quatro meses. Outras estão na estrada há anos, arregimentando voluntários para acabar com o sofrimento alheio. Coordenador da Ação da Cidadania Pernambuco Solidário, Anselmo Monteiro está à frente de uma há 13 anos. Quer eliminar a fome. De comida, de educação e de carinho. “O trabalho se parece com o de organizar um exército”, compara. São duas mil pessoas atuando no Natal Sem Fome dos Sonhos, que distribui alimentos, brinquedos e livros.
Um dos soldados é a costureira Marina Vieira, do Córrego Bela Vista, Zona Norte. No fim de ano, trabalha de 6h às 22h para montar cestas básicas. E anima outros a colaborarem. “Meu sonho era fazer um Natal sem fome na comunidade. Trouxe oito amigos para ajudar.” Semana passada, doaram livros a crianças do Córrego. Abriram uma janela de esperança para meninos como Bruno Daniel, 12, que nunca ganhara um livro na vida.
Em São Lourenço, Grande Recife, a aposentada Severina Nunes, 73, dá até o que não pode para ver a meninada da Muribara alegre. O almoço natalino que serviu por 40 anos tornou-se tradição. Há três anos, mudou a estratégia: pede cestas básicas para doar na Vila da Saudade. Lá, onde nem ônibus chega, plantou sementes de solidariedade. Moradores da vila engajaram-se e conseguiram construir até a capela da comunidade. Dona Severina espera semear solidariedade por muito tempo. “Me sinto feliz. Se Jesus repartia o pão, por que não fazer o mesmo?”